O CEP digital no Morro da Kibon, em Santo André (SP), foi implantado em parceria entre a prefeitura, o Google e a NaPorta. Leandro Mendes dos Reis, conhecido como Leo da Kibon, participou da mobilização comunitária.
Morador do local desde os 3 anos, Reis chegou de Irecê (BA) e relata que a falta de endereços dificultava entregas e a chegada do socorro. Ele associa a ausência de CEP à invisibilidade das famílias perante os serviços públicos.
A implantação do sistema ocorreu ao longo de 2024, com trabalho de mapeamento e diálogo com os moradores. Segundo Reis, parte da comunidade temia que a identificação dos endereços pudesse colocar em risco a permanência das famílias no morro.

A NaPorta, responsável pelo sistema em parceria com o poder público, é finalista do Prêmio Empreendedor Social 2026 na categoria Inovadores Sociais do Ano. O relato de Reis aborda a geolocalização, o acesso a serviços e o reconhecimento dos moradores.
A trajetória de Leandro e a falta de endereço no Morro da Kibon
Em seu relato, Leandro Mendes dos Reis conta que a família viveu em um barraco no barranco do Morro da Kibon, onde as chuvas e as reintegrações de posse derrubaram a casa repetidas vezes. Ele diz que a reconstruíram mais de dez vezes; em dias de temporal, a mãe abrigava os cinco filhos sob uma beliche enquanto o vento arrancava o telhado.
Durante o dia, Reis recolhia material reciclável com a mãe, e os dois vendiam o que juntavam para comprar comida. Como não havia água encanada na casa, a família buscava água em uma torneira comunitária; o pai, ao voltar do trabalho, retirava o barro acumulado e fazia escoras para sustentar as paredes.
Quando tinha 10 anos, Reis presenciou as consequências da dificuldade de localizar moradias: um incêndio destruiu a casa de um colega de escola e matou a mãe, a tia e três crianças da família. Segundo ele, os bombeiros passaram pela avenida sem encontrar a residência a tempo, e a comunidade também não tinha água para conter o fogo.
Reis afirma que, nas reuniões comunitárias acompanhadas pelo pai, ouvia relatos de pessoas impedidas de conseguir emprego por não terem endereço. Algumas famílias usavam o CEP de parentes para matricular crianças na creche e acessar o posto de saúde; como conhecia as vielas por circular nelas para recolher recicláveis, ele frequentemente orientava quem tentava encontrar uma casa.
Implantação do CEP Digital e mudanças na localização de serviços
Reis apoiou a criação do Instituto Kibon e ajudou a assentar 300 famílias no morro, incluindo a sua. Durante a implantação do sistema, percorreu as vielas com os técnicos para explicar a proposta e conversar com moradores que desconfiavam do mapeamento.
O trabalho envolveu identificar os caminhos e as moradias, além de instalar placas e adesivos. Reis relata que explicou aos moradores que a geolocalização e cada placa identificariam a presença de uma família, permitindo que ela fosse reconhecida pelas políticas públicas.
Com o CEP Digital, os socorristas conseguem chegar às moradias por meio da geolocalização, sem que Reis precise ir até a entrada do morro para guiá-los. Ele também relata que as entregas de comércio eletrônico e de farmácias passaram a encontrar os endereços e que os moradores deixaram de informar endereços de outras pessoas.
Os pais de Reis continuam morando no Morro da Kibon, onde ele também formou sua família. Ao falar sobre os filhos, Christopher e Sofia, o líder comunitário relaciona o sistema à possibilidade de que eles e os demais moradores sejam identificados nos registros e no mapa.


